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Para inglês ver

Alto lá! O Brasil já era! A mesma revista que nos promoveu à invejável condição de prediletos diz agora que hum... maybe not... not really, Brazil... Só se apaga um amor com outro? Corrige-se um exagero com outro?
É mais ou menos isso o que está por trás da reportagem de 14 páginas publicada pela inglesa The Economist. As opiniões europeias e norte-americanas a respeito do Brasil, de nosso momento atual e de nossa cultura, já foram assunto de alguns textos que escrevi para este Yahoo. Num deles, de grande sucesso, comentei provocações de João Pereira Coutinho – cuja mordacidade me diverte, para desespero de alguns amigos quem moram na Vila Madalena e execram os humores do cronista. Quanto à Economist, quem disse que nós decolamos, quem foi que nos representou como cristo-foguete? Eles mesmos, por livre e espontânea vontade. Então, que se acertem com seus exageros, prognósticos e interesses. Certo: muitos entre nós adoraram a ideia de sermos a vedete dos mercados e dos negócios, dos grandes eventos... O delírio foi moeda eleitoral para muita gente... Ser vedete é negócio rentoso, sobretudo se você cruzar as pernas no momento certo.
Agora falando sério
Mas, agora, deixando de lado certas literatices cítricas e, como dizem os chatos, "falando sério".

Quem conhece e atua no Brasil, em qualquer área, sabe (e sente) que a realidade brasileira desafia a melhor sociologia, as grandes teorias, as macro-interpretações "do Norte" e, acima de tudo, o pensamento aproximativo, que pretende nos pintar com categorias da bonne pensée europeia. Como se nossas dinâmicas fossem – ainda – meras subdinâmicas de arriba. Sim, estamos numa economia-mundo sim e o Brasil nasceu moderno sim: nasceu como parte da expansão econômica europeia do seculo 15, conforme dirá qualquer historiador que se consulte. Mas isso não significa que, em pleno século 21, possamos deduzir os "altos e baixos" da nossa vida econômica, social e cultural a partir de modelos genéricos, úteis talvez, mas falhos. E eis que ao abrir a revista inglesa, lá estão as velhas afirmações de que sempre nos livramos da desgraça total graças à nossa vocação agrária, exportadora de commodities, amém. Bom, em parte é verdade, pois queremos que seja. As curvas da economia refletem também nossas mentalidades, diria um dos grandes pensadores brasileiros, the economist Celso Furtado. Furtado percebeu os constrangimentos da chamada "divisão internacional do trabalho", mas não ficou nisso.
A reportagem da Economist não é ruim, nem mal feita, e sua leitura é altamente recomendável. Bem escrita, muito bem estruturada, como tudo o que fazem ali. Seu amor pelos dados e tabelas, aliás, é um colírio em cabarés esfumaçados onde muito frequentemente os debates sobre economia se organizam a partir de achismos diversos e as opinões variam com o colarinho do chopp. No entanto, os pontos cegos estão lá, na matéria, aos montes. Independentemente de suas simpatias explícitas ou implícitas por tal ou qual partido, personalidade, ideia ou tendência política.
Seria bom analisar com parcimônia os detalhes de cada afirmação feita pelos ingleses, das mais acertadas às mais óbvias (por exemplo, "a economia brasileira está overpriced" – ah vá, não me diga!) passando pelas mais estapafúrdias (por exemplo, "o Brasil tem um sistema previdenciário excessivamente generoso" – garçom, mais uma!). Não dá para fazer um seminário acadêmico num artigo curtinho, sem botar o leitor em desespero, secar-lhe a guela. Mas, repito, vale ler com respeito. Cada um perceberá, ao seu modo, a relação complicada entre os grandes panoramas e os "detalhes tão pequenos" que, porém, "são coisas muito grandes pra esquecer". Mas dos quais costumeiramente nos esquecemos.
A jornalista Patricia Campos Mello, num artigo para a Folha de S.Paulo, afirmou que a reportagem da Economist "solapa a ofensiva de charme do governo Dilma". Aí, caberia um acréscimo: Larry Rother, com quem Lula viveu às turras, escreveu sobre este Brasil de hoje um belíssimo livro, infinitamente mais rico e sofisticado e divertido. Escrito com espírito de bar, lugar onde a mesma fumaça que irrita os olhos faz ver certas complexidades, ou jogos de espelho, por todos os lados. Afinal, um bom correspondente muitas vezes faz, melhor, o serviço que dez infográficos não fazem.
(por josé guilherme pereira leite )
(dedicado ao amigo Ignacy Sachs)

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