Estudos



A REDAÇÃO DOS TEXTOS DEFINITIVOS
Nesse tempo, quando a guerra formidável da critica procurava minar
o edifício imortal da nova doutrina, os mensageiros do Cristo presidem à
redação dos textos definitivos, com vistas ao futuro, não somente junto
aos Apóstolos e seus discípulos, mas igualmente junto aos núcleos das
tradições. Os cristãos mais destacados trocam, entre si, cartas de alto
valor doutrinário para as diversas igrejas. São mensagens de fraternidade
e de amor, que a posteridade muita vez não pôde ou não quis
compreender.
Muitas escolas literárias se formaram nos últimos séculos, dentro da
crítica histórica, para o estudo e elucidação desses documentos. A palavra
"apócrifo" generalizou-se como o espantalho de todo o mundo. Histórias
numerosas foram escritas. Hipóteses incontáveis foram aventadas, mas os
sábios materialistas, no estudo das idéias religiosas, não puderam
sentir que a intuição está acima da razão e, ainda uma vez, falharam, em
sua maioria, na exposição dos princípios e na apresentação das grandes
figuras do Cristianismo.
A grandeza da doutrina não reside na circunstância de o Evangelho
ser de Marcos ou de Mateus, de Lucas ou de João; está na beleza imortal
que se irradia de suas lições divinas, atravessando as idades e atraindo os
corações. Não há vantagem nas longas discussões quanto à autenticidade
de uma carta de Inácio de Antioquia ou de Paulo de Tarso, quando o
raciocínio absoluto não possui elementos para a prova concludente e
necessária. A opinião geral rodopiará em torno do crítico mais eminente,
segundo as convenções. Todavia, a autoridade literária não poderá
apresentar a equação matemática do assunto. É que, portas a dentro do
coração, só a essência deve prevalecer para as almas e, em se tratando
das conquistas sublimadas da fé, a intuição tem de marchar à frente da
razão, preludiando generosos e definitivos conhecimentos.


A MISSÃO DE PAULO
No trabalho de redação dos Evangelhos, que constituem, sem
dúvida, o portentoso alicerce do Cristianismo, verificavam-se, nessa
época, algumas dificuldades para que se lhes desse o precioso caráter
universalista.
Todos os Apóstolos do Mestre haviam saído do teatro humilde de
seus gloriosos ensinamentos; mas, se esses pescadores valorosos eram
elevados Espíritos em missão, precisamos considerar que eles estavam muito longe da situação de espiritualidade do
Mestre, sofrendo as influências do meio a que foram conduzidos. Tão logo
se verificou o regresso do Cordeiro às regiões da Luz, a comunidade
cristã, de modo geral, começou a sofrer a influência do judaísmo, e quase
todos os núcleos organizados, da doutrina, pretenderam guardar feição
aristocrática, em face das novas igrejas e associações que se fundavam
nos mais diversos pontos do mundo.
É então que Jesus resolve chamar o espírito luminoso e enérgico de
Paulo de Tarso ao exercício do seu ministério. Essa deliberação foi um
acontecimento dos mais significativos na história do Cristianismo. As
ações e as epístolas de Paulo tornam-se poderoso elemento de
universalização da nova doutrina. De cidade em cidade, de igreja em igreja,
o convertido de Damasco, com o seu enorme prestígio, fala do Mestre,
inflamando os corações. A princípio, estabelece-se entre ele e os demais
Apóstolos uma penosa situação de incompreensibilidade, mas sua
influência providencial teve por fim evitar uma aristocracia injustificável
dentro da comunidade cristã, nos seus tempos inesquecíveis de
simplicidade e pureza.

O APOCALIPSE DE JOÃO
Alguns anos antes de terminar o primeiro século, após o advento da
nova doutrina, já as forças espirituais operam uma análise da situação
amargurosa do mundo, em face do porvir.
Sob a égide de Jesus, estabelecem novas linhas de progresso para a
civilização, assinalando os traços iniciais dos países europeus dos tempos
modernos. Roma já não representa, então, para o plano invisível, senão um
foco infeccioso que é preciso neutralizar ou remover. Todas as dádivas do
Alto haviam sido desprezadas pela cidade imperial, transformada num
vesúvio de paixões e de esgotamentos.
O Divino Mestre chama aos Espaços o Espírito João, que ainda se
encontrava preso nos liames da Terra, e o Apóstolo, atônito e aflito, lê a
linguagem simbólica do invisível.
Recomenda-lhe o Senhor que entregue os seus conhecimentos ao
planeta como advertência a todas as nações e a todos os povos da Terra, e
o velho Apóstolo de Patmos transmite aos seus discípulos as advertências
extraordinárias do Apocalipse.
Todos os fatos posteriores à existência de João estão ali previstos.
É verdade que freqüentemente a descrição apostólica penetra o terreno
mais obscuro; vê-se que a sua expressão humana não pôde copiar
fielmente a expressão divina das suas visões de palpitante interesse para a
história da Humanidade. As guerras, as nações futuras, os tormentos
porvindouros, o comercialismo, as lutas ideológicas da civilização
ocidental, estão ali pormenorizadamente entrevistos. E a figura mais
dolorosa, ali relacionada, que ainda hoje se oferece à visão do mundo
moderno, é bem aquela da igreja transviada de Roma, simbolizada na
besta vestida de púrpura e embriagada com o sangue dos santos.

IDENTIFICAÇÃO DA BESTA APOCALÍPTICA
Reza o Apocalipse que a besta poderia dizer grandezas e blasfêmias
por 42 meses, acrescentando que o seu número era o 666 (Apoc. XIII, 5 e
18). Examinando-se a importância dos símbolos naquela época e seguindo
o rumo certo das interpretações, podemos tomar cada mês como sendo de
30 anos, em vez de 30 dias, obtendo, desse modo, um período de 1260
anos comuns, justamente o período compreendido entre 610 e 1870, da
nossa era, quando o Papado se consolidava, após o seu surgimento, com
o imperador Focas, em 607, e o decreto da infalibilidade papal com Pio IX,
em 1870, que assinalou a decadência e a ausência de autoridade do
Vaticano, em face da evolução científica, filosófica e religiosa da
Humanidade.
Quanto ao número 666, sem nos referirmos às interpretações com
os números gregos, em seus valores, devemos recorrer aos algarismos
romanos, em sua significação, por serem mais divulgados e conhecidos,
explicando que é o Sumo-Pontífice da igreja romana quem usa os títulos
de "VICARIVS GENERALIS DEI IN TERRIS", "VICARIVS FILII DEI" e "DVX
CLERI" que significam "Vigário-Geral de Deus na Terra", "Vigário do Filho
de Deus" e "Príncipe do Clero". Bastará ao estudioso um pequeno jogo de
paciência, somando os algarismos romanos encontrados em cada titulo
papal a fim de encontrar a mesma equação de 666, em cada um deles.
Vê-se, pois, que o Apocalipse de João tem singular importância para
os destinos da Humanidade terrestre.

O ROTEIRO DE LUZ E DE AMOR
Mas, voltemos aos nossos propósitos, cumprindo-nos reconhecer
nos Evangelhos uma luz maravilhosa e divina, que o escoar incessante
dos séculos só tem podido avivar e reacender. É que eles guardam a
súmula de todos os compêndios de paz e de verdade para a vida dos
homens, constituindo o roteiro de luz e de amor, através do qual todas as
almas podem ascender às luminosas montanhas da sabedoria dos Céus.

PENOSOS COMPROMISSOS ROMANOS
Debalde tentaram as forças espirituais o aproveitamento dos
romanos na direção suprema do mundo. Todos os recursos possíveis
foram prodigalizados inutilmente à cidade imperial. A canalização de
consideráveis riquezas materiais, possibilitando a consolidação de um
Estado único no planeta, não fora esquecida, ao lado de todas as
providências que se faziam necessárias, do ponto de vista moral. Em vão,
transplantara-se para Roma a extraordinária sabedoria ateniense e a
colaboração de todas as experiências dos povos conquistados.
Os Espíritos encarnados não conseguiram a eliminação dos laços
odiosos da vaidade e da ambição, sentindo-se traídos em suas energias
mais profundas, contraindo débitos penosos, perante os tribunais da
Justiça Divina.
A vinda do Cristo ao cenáculo obscuro do planeta, trazendo a
mensagem luminosa da verdade e do amor, assinalara o período da
maioridade espiritual da Humanidade. Essa maioridade implicava direitos
que, por sua vez, se fariam acompanhar do agravo de responsabilidades e
deveres para a solução de grandes problemas educativos do coração. Se
ao homem físico rasgavam-se os mais amplos horizontes nos domínios do
progresso material, os Evangelhos vinham trazer ao homem espiritual um
roteiro de novas atividades, educando-o convenientemente para as suas
arrojadas conquistas de ciência e de liberdade, com vistas ao porvir. O
aproveitamento desse processo educativo deveria ser levado a efeito pela
capital do mundo, de acordo com os desígnios do plano espiritual.
Pesadas forças da Treva, porém, aliaram-se às mais fortes tendências do
homem terrestre, constantemente inclinado aos liames do mal que o
prendiam à Terra, adstrito aos mais grosseiros instintos de conservação,
e, enquanto os Espíritos abnegados, do Alto, choram sobre os abusos de
liberdade dos romanos, a cidade dos Césares embriaga-se cada vez mais
no vinho do ódio e da ambição, contraindo dívidas penosas, entrelaçando
os seus sentimentos com o ódio dos vencidos e dos humilhados, criando
negras perspectivas para o longínquo futuro.

CULPAS E RESGATES DOLOROSOS DO HOMEM ESPIRITUAL
Ao coração misericordioso de Jesus chegam as preces dolorosas de
todos os operários da sua bendita semeadura. Seu olhar percuciente,
todavia, penetrara o âmago das almas e não fora em vão que recomendara
o crescimento do trigo e do joio nas mesmas leiras, somente a Ele
competindo a separação, na época da ceifa
A limitada liberdade de ação dos indivíduos e das coletividades é
integralmente respeitada Cada qual é responsável pelos seus atos,
recebendo de conformidade com as suas obras.
Foi por isso que Roma teve oportunidade de realizar seus propósitos
e desígnios políticos; mas a Justiça Divina acompanhou-lhe todos os
passos, nos enormes desvios a que se conduziu, comprometendo para
sempre o futuro do homem espiritual, que somente agora conhecerá um
reajustamento nas amargurosas transições do século que passa. Um laço
pesado e tenebroso reuniu a cidade conquistadora aos povos que
humilhara. O ódio do verdugo e dos seus inimigos fundiu-se em séculos
de provações e de lutas expiatórias, para demonstrar que Jesus é o
fundamento da Verdade e só o amor é a sagrada finalidade da vida. Foi por
essa razão que o conquistador e os conquistados, unidos pelo ódio como
calcetas algemados um ao outro nas galés da amargura, compareceram
periodicamente, nos Espaços, ante a misericórdia suprema do Filho de
Deus, prometendo a reparação e o resgate recíprocos, nos séculos do
porvir, fundando a civilização ocidental, como abençoada oficina dos seus
novos
trabalhos no esforço da fraternidade e da regeneração.
A bondade do Mestre fez florescer cidades valorosas e
progressistas, países cultos e fartos, onde as almas decaídas
encontrassem todos os elementos de edificação e aprimoramento. O
homem físico continuou a linha ascensional de sua evolução nas
conquistas e descobrimentos, mas o homem transcendente, a
personalidade imortal, teria saído do oceano de lodo onde se mergulhou,
voluntariamente, há dois milênios?
Respondam por nós as angustiosas expectativas da hora presente.

OS MÁRTIRES
Antes do movimento de propagação das idéias cristãs no seio da
sociedade romana, já os prepostos de Jesus se preparavam para auxiliar
os missionários da nova fé, conhecendo a reação dos patrícios em face
dos postulados de fraternidade da nova doutrina.
As classes mais abastadas não podiam tolerar semelhantes
princípios de igualdade, quais os que preconizavam as lições do Nazareno,
considerados como postulados de covardia moral, incompatíveis com a
orgulhosa filosofia do Império, e é assim que vemos os cristãos sofrendo
os martírios da primeira perseguição, iniciada no reinado de Nero, de tão
dolorosas quão terríveis lembranças. Nenhum instrumento de suplício foi
esquecido na experimentação da fé e da constância daquelas almas
resignadas e heróicas. O açoite, a cruz, o cavalete, as unhas de ferro, o
fogo, os leões do circo,
tudo foi lembrado para maior eficiência da perseguição aos seguidores do
Carpinteiro de Nazaré. Pedro e Paulo entregam a vida na palma dos
martírios santificadores e de Nero a Diocleciano uma nuvem pesada, de
sangue e de lágrimas, envolve a alma cristã, cheia de confiança na
Providência Divina. O próprio Marco Aurélio, cuja elevada estatura
espiritual recebera do Alto a missão de paralisar semelhantes desatinos,
não conseguiu deter a corrente de forças trevosas, mas o sangue dos
cristãos era a seiva da vida lançada às divinas sementes do Cordeiro, e os
seus sacrifícios foram bem os reflexos da amorosa vibração do
ensinamento do Cristo, atravessando os séculos da Terra para ser
compreendido e praticado nos milênios do porvir.

OS APOLOGISTAS
A doutrina cristã, todavia, encontrara nas perseguições os seus
melhores recursos de propaganda e de expansão.
Seus princípios generosos encontravam guarida em todos os
corações, seduzindo a consciência de todos os estudiosos de alma livre e
sincera. Observa-se-lhe a influência no segundo século, em quase todos
os departamentos da atividade intelectual, com largos reflexos na
legislação e nos costumes. Tertuliano apresenta a sua apologia do
Cristianismo, provocando admiração e respeito gerais. Clemente de
Alexandria e Orígenes surgem com a sua palavra autorizada, defendendo a
filosofia cristã, e com eles levanta-se um verdadeiro exército
de vozes que advogam a causa da verdade e da justiça, da redenção e do
amor.

O JEJUM E A ORAÇÃO
Os cristãos, contudo, não tiveram de início uma visão do campo de
trabalho que se lhes apresentava. Não atinaram que, se o jejum e a oração
constituem uma grande virtude na soledade, mais elevada virtude
representam quando levados a efeito no torvelinho das paixões
desenfreadas, nas lutas regeneradoras, a fim de aproveitar aos que os
contemplam. Não compreenderam imediatamente que esses preceitos
evangélicos, acima de tudo, significam sacrifício pelo próximo,
perseverança no esforço redentor, serenidade no trabalho ativo, que
corrige e edifica simultaneamente. Retirando-se para a vida monástica,
povoaram os desertos na suposição de que se redimiriam mais
rapidamente para o Cordeiro.
Uma ânsia de fugir das cidades populosas fazia então vibrar todos
os crentes, originando os erros da idade medieval, quando o homem
supunha encontrar nos conventos as antecâmaras do Céu.
O Oriente, com os seus desertos numerosos e os seus lugares
sagrados, afigura-se o caminho de todos quantos desejam fugir dos antros
das paixões. Só a grande montanha de Nítria chegou a possuir trinta mil
anacoretas, exilados do mundo e dos seus prazeres desastrosos.
Entretanto, examinando essa decisão desaconselhável dos primeiros
tempos, somos levados a recordar que os cristãos se haviam esquecido de
que Jesus não desejava a morte do pecador.

CONSTANTINO
As forças espirituais que acompanhavam e acompanham todos os
movimentos do orbe, sob a égide de Jesus, procuram dispor os alicerces
de novos acontecimentos, que devem preparar a sociedade romana para o
resgate e para a provação.
A invasão dos povos considerados bárbaros é então entrevista.
Uma forte anarquia militar dificulta a solução dos problemas de
ordem coletiva, elevando e abatendo imperadores de um dia para outro.
Sentindo a aproximação de grandes sucessos e antevendo a
impossibilidade de manter a unidade imperial, Diocleciano organiza a
Tetrarquia, ou governo de quatro soberanos, com quatro grandes capitais.
Retirando-se para Salona, exausto da tarefa governativa, ocorre a
rebelião militar que aclama Augusto a Constantino, filho de Constâncio
Cloro, contrariando as disposições dos dois Césares, sucessores de
Diocleciano e Maximiano. A luta se estabelece e Constantino vence
Maxêncio às portas de Roma, penetrando a cidade, vitorioso, para ser
recebido em triunfo. Junto dele, o Cristianismo ascende à tarefa do Estado,
com o edito de Milão.

O PAPADO
Desde a décima perseguição que o Cristianismo era considerado em
Roma como doutrina morta, mas os prepostos do Mestre não
descansavam, com o nobre fim de fazer valer os
seus generosos princípios. A fatalidade histórica reclamava a sua
colaboração nos gabinetes da política do mundo e, ainda uma vez, a
indigência dos homens não compreendeu a dádiva do plano espiritual,
porque, logo depois da vitória, os bispos romanos solicitavam
prerrogativas injustas sobre os seus humildes companheiros de
episcopado. O mesmo espírito de ambição e de imperialismo, que de longo
tempo trabalhava o organismo do Império, dominou igualmente a igreja de
Roma, que se arvorou em suserana e censora de todas as demais do
planeta. Cooperando com o Estado, faz sentir a força das suas
determinações arbitrárias. Trezentos anos lutaram os mensageiros do
Cristo, procurando ampará-la no caminho do amor e da humildade, até que
a deixaram enveredar pelas estradas da sombra, para o esforço de
salvação e de experiência, e, tão logo a abandonaram ao penoso trabalho
de aperfeiçoar-se a si mesma, eis que o imperador Focas favorece a
criação do Papado, no ano de 607. A decisão imperial faculta aos bispos
de Roma prerrogativas e direitos até então jamais justificados. Entronizamse,
mais uma vez, o orgulho e a ambição da cidade dos Césares. Em 610,
Focas é chamado ao mundo dos invisíveis, deixando no orbe a
consolidação do Papado. Dessa data em diante, ia começar um período de
1260 anos de amarguras e violências para a civilização que se fundava.

0 comentários:

Postar um comentário

Labels

Aurora Boreal/Grupo C.E. Tecnologia do Blogger.

Mapa

Free Visitor Maps at VisitorMap.org