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Método permite 'leitura' de sonhos

Pesquisadores japoneses conseguem identificar conteúdo visual dos sonhos com 60% de precisão

Mariana Lenharo 
Identificar as imagens que passam pela cabeça de uma pessoa adormecida não é mais um feito restrito à ficção científica. Pesquisadores japoneses conseguiram identificar, com 60% de precisão, o conteúdo visual dos sonhos de voluntários. O resultado foi obtido por meio da análise de suas atividades cerebrais, colhidas por ressonância magnética funcional.
Para chegar à conclusão, publicada esta semana na revista Science, os cientistas dependeram da paciência de três voluntários que, por mais de 200 vezes cada um, foram acordados durante sonecas e solicitados a relatar com o que estavam sonhando no estágio mais precoce do sono. Em 75% das vezes, os participantes lembraram-se das imagens que experimentaram no sono.
Durante todo o processo, que foi feito em várias sessões ao longo de 10 dias, eles permaneceram deitados com a cabeça no interior de um aparelho de ressonância magnética funcional.
No fim dessa fase, foi feita uma análise textual dos relatos e foram criadas categorias para classificar as imagens descritas pelos voluntários. Os pesquisadores, então, selecionaram as categorias que apareciam em pelo menos 10 relatos e mostraram imagens desses objetos para os mesmos participantes, desta vez acordados, enquanto eram submetidos novamente à ressonância magnética.
Os padrões de atividades cerebrais identificados como resposta a cada uma das imagens vistas durante a vigília foram usados para "treinar" um computador a entender de que maneira o cérebro reage aos estímulos visuais. Por último, esse modelo computacional foi aplicado para interpretar as informações sobre atividades cerebrais coletadas durante o sono dos participantes.
"O mesmo padrão foi encontrado quando as pessoas sonharam com determinado objeto e quando elas olharam para o objeto enquanto acordadas", disse o neurocientista Yukiyasu Kamitani, principal autor do estudo.
O resultado foi que o decodificador conseguiu captar as imagens que se passavam na mente dos sonhadores com 60% de precisão, após comparação desses dados com os relatos pós-sonho.
O neurologista André Felício, da Academia Brasileira de Neurologia (Abneuro), observa que o sonho é objeto de poucos estudos na área de neurociência. "Os pesquisadores tratam o tema com certo preconceito pela influência de diversas linhas da psicologia que buscam a interpretação dos sonhos desde Freud, o que não é visto como científico."
Felício cita que o sonho é uma experiência considerada subjetiva. "O estudo conseguiu tornar algo bastante subjetivo em algo objetivo e mensurável. Transformou em palpável algo que antes não era. É muito mais fácil para o cientista trabalhar com a matéria concreta."
Não existe nenhuma evidência científica de que o conteúdo dos sonhos possa ter qualquer significado especial relacionado ao cotidiano do sonhador, de acordo neurologista Shigueo Yonekura, especialista em sono pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Ainda assim, ele vê o estudo como um avanço no sentido de "desvendar os mistérios do cérebro".
Uma análise publicada na mesma edição na Science traz as impressões sobre a pesquisa do neurocientista Robert Stickgold, da Escola de Medicina de Harvard. Estudioso dos sonhos, ele descreve o trabalho como "impressionante em seu detalhamento e sucesso". "Essa é provavelmente a primeira demonstração real da base cerebral do conteúdo dos sonhos."
Ele observa que, até agora, não havia base científica para ter certeza de que as pessoas simplesmente não inventam seus sonhos quando acordam.
Sobre a utilidade de saber com o que as pessoas estão sonhando, Kamitani observa que, hoje, a função do sonho é desconhecida. "Se nós podermos relacioná-lo à nossa experiência acordada, isso pode levar a um melhor entendimento de sua função."

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