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 •  José Luiz Condotta

Personalidade
A palavra personalidade é derivada de persona – do latim – que significa máscara. Usada originalmente pelo teatro grego, onde cada ator utilizava uma máscara (persona) que identificava as características psicológicas do personagem.
Definir personalidade não é uma tarefa fácil e achamos que ainda não exista uma definição completa. De uma maneira simples podemos falar que personalidade seria a forma característica na qual uma pessoa pensa e se comporta à medida que se ajusta ao ambiente1. Carver e Scheier a definem assim: “personalidade é uma organização interna e dinâmica dos sistemas psicofísicos que criam os padrões de comportar-se, de pensar e de sentir de uma pessoa”. Em ambas as definições estão inseridas as estruturas da mente responsáveis pelos processos chamados dinâmicos: pensamento, sentimento, percepção e ação. Lembrando que a personalidade é sempre expressa num determinado ambiente.
Pela ótica espírita, não temos nenhuma dificuldade de entender que nessas definições, primeiramente, está expressa a condição do homem ser formado pelo corpo e alma. Basta lembrarmos da Doutrina quando nos ensina que o pensamento, o sentimento e a percepção são atributos dos corpos espirituais e as ações do corpo físico. Os sistemas psicofísicos (citados acima) criadores de padrões comportamentais e emocionais também revelam, pela própria constituição da palavra, ser psíquicos e físicos. Pelo Espiritismo, o psiquismo humano é controlado pelo psiquismo do espírito (mente). Desta forma, o corpo físico espelha a alma e, através dele, quando em ação, refletem as emoções e os sentimentos.
Teorias da Personalidade
Freud limitou sua teoria psicológica no homem apenas após o seu nascimento, isto é na vida atual. As vivências, experiências, afetos e percepções escrevem suas histórias no decorrer da vida, encerrando com a morte do organismo. Não fez referência à alma, espírito e Deus – dizia que tudo isto é campo da filosofia e religião. Sua teoria vê só o corpo como um complexo de processos fisiológicos e bioquímicos. Acreditava que as pessoas seriam governadas pelos seus instintos animais e que a maior parte das nossas ações tem origem no inconsciente. O ego consciente, que permite a nossa vida de relação com o mundo, estaria constantemente em luta com os nossos instintos (principalmente os sexuais e de sobrevivência) e as exigências deste mundo.
Jung discordou em vários pontos de Freud e achava que existia uma dimensão mais profunda na natureza humana. Os conteúdos inconscientes não poderiam ser explicados somente pelas histórias individuais (inconsciente individual), mas por conteúdos comuns a todas as criaturas e que se acham vinculadas entre si (inconsciente coletivo, em que atuam os chamados arquétipos). Disse também que o consciente é derivado de um inconsciente mais antigo que ele e ambos funcionam em conjunto. Em outras palavras, o inconsciente (individual quanto o coletivo, o mais profundo) seria a fonte da consciência atual.
Adler discordou também de Freud e Jung em vários pontos e na sua teoria refere a existência de uma força que emana do inconsciente que governa a vida – é o impulso que todo ser humano deseja ser bem sucedido na vida (autorrealização). Esta força seria mais forte que os instintos sexuais de Freud e os religiosos de Jung.
O humanista Carl Rogers acreditava que o objetivo principal do homem é ser funcionante (prático e independente) e se autorrealizar.
Estudando as diversas teorias, podemos dizer que todas têm suas razões e a Doutrina Espírita não contesta nada dos seus conteúdos; apenas analisa. Freud, por exemplo, fala que praticamente o que nos comanda é o inconsciente a partir do nascimento. Jung fala em desejos espirituais. Adler em autorrealização completa (podemos entender como um ideal de perfeição) e Rogers em independência e também em autorrealização. Mas, a psicologia espírita gostaria que a psicologia (ciência) explicasse melhor o que é o inconsciente (pessoal e coletivo), como é formado e do que é constituído, num sentido mais amplo. Para evitar infindáveis discussões, tudo ficaria mais fácil e legível se a ciência psicológica levasse em consideração a alma (o espírito encarnado) com todas as suas propriedades e a reencarnação, o que ampliaria a sua visão na compreensão da psique.
O inconsciente na visão espírita
O inconsciente, pela ótica espírita, seria o patrimônio trazido pelo espírito das suas experiências e vivências de todas as suas vidas passadas. Desta forma, estaríamos sendo conduzidos e agindo pela bagagem espiritual – o inconsciente de Freud, Jung e outros... Dele flui claramente as nossas imperfeições que, pela misericórdia divina, temos tudo para entendê-las e repará-las, podemos assim viver melhor e nos autorrealizarmos (o que Adler propôs). Em se realizando, ficaremos mais funcionantes e com o espírito mais liberto para enfrentarmos as vicissitudes da vida terrena (ideias de Rogers). É sempre bom lembrar que o rumo do homem é a perfeição, queira ou não.
Personalidade na visão espírita
Na Doutrina Espírita, existe também a dificuldade para uma definição de personalidade. Herculano Pires refere que o mistério do ser, que aturde os estudiosos, chama-se personalidade. Cada ser é uma pessoa desde a concepção. Vindo ao mundo já nasce formada a sua complicada estrutura que vai apenas desenvolver-se no crescimento e na relação social2. Léon Denis reporta que a nossa personalidade é muito mais ampla do que até hoje se acreditou. Nela repousa um mundo de conhecimentos, lembranças, de impressões acumuladas por nossas vidas antecedentes e que o véu do físico ocultou ao renascermos3. Kardec também esclarece que a natureza íntima do Espírito, do ser pensante, é ainda desconhecida4.
Embora a natureza íntima dos espíritos seja inacessível, ela pode ser em parte, conhecida pelo que exterioriza, quando explicita as suas manifestações cognitivas, afetivas, volitivas e instintivas. Todas as potencialidades intelectuais e morais agrupam-se na consciência, no EU, na personalidade ou ainda, se quiser, na alma.
Entendemos também que a personalidade é trazida pelo espírito reencarnante (congênita, inata, nasce com a pessoa) e receberá a influência do mundo em que está chegando, para fazê-la evoluir e, para isto, terá que se reparar, quitar-se ou desincumbir-se de equívocos praticados no pretérito, ou cumprir uma missão. Portanto ela é dinâmica, isto é, pode se modificar com as aquisições, vivências e experiências atuais. Essa capacidade é facilitada pelos atributos da alma: pensamento, afetos (sentimentos e emoções), livre-arbítrio, memória e vontade. No mundo nada fica estacionado, muito menos a personalidade. Resumindo: a personalidade atual é construída a partir da personalidade congênita trazida pelo espírito reencarnante.
Ensina também a Doutrina que o espírito gera, ordena e comanda as ações do corpo físico. Este espelha a alma, a individualidade. Fica fácil entendermos que o homem é portador de uma só personalidade (máscara), com a qual terá que enfrentar o mundo que habita e trabalhar muito para lapidá-la, para que fique sempre mais agradável de ver. Lapidá-la significa restaurar as suas imperfeições e acentuar os traços das suas virtudes. Para isto a vontade de melhora, o sentido de vida, elevados valores morais e éticos e a consciência das Leis de Deus são imprescindíveis. Sabemos que restauração é um trabalho de paciência, de perseverança, de humildade, de esperança, de fé e de amor.
Cuidado com uso da máscara
Queremos rapidamente comentar sobre um fato muito comum no nosso cotidiano, na nossa prática profissional: o mau uso da máscara pelas pessoas. Não entraremos na questão das personalidades que têm uma estruturação anômala desde a infância, com distorções do caráter ético-moral exteriorizadas, os chamados transtornos de personalidade. Apenas os casos em que as pessoas não cuidam bem das suas máscaras, ou por conveniência, ou por certas deficiências no organismo perispiritual caracterizando a imaturidade psicológica, quando surge um receio ou uma preocupação em exteriorizar o seu próprio ego.
No mundo moderno os recursos e os estímulos são contínuos e em grande quantidade, que o homem encontra sérias dificuldades para elaborá-los de forma satisfatória, podendo ocorrer distorções energéticas nos seus corpos espirituais e físicos. Diante de tantas exigências externas, pode faltar-lhe a estrutura psicológica para suportar a realidade e acaba esquecendo a sua própria máscara (personalidade) e começa a agir como se tivesse uma outra (ou mais de uma) sobreposta à verdadeira, distorcendo-a, passando a viver com a camuflagem, na ilusão. Isto provoca uma série de condições anômalas, desde o modo de pensar e sentir, até o completo modo de viver. Em grande parte essa atitude é consciente, quase sempre visando às recompensas e aos prazeres materiais de imediato, demonstrando as fraquezas das virtudes. As ilusões levam o indivíduo a se apresentar como gostaria de ser e não como é – compõe uma personagem que o mundo espera dele – como se fosse um acordo entre ele e a sociedade.
Notamos, e cada vez mais frequentemente, indivíduos dando pouca importância a sua própria máscara, rejeitando vários de seus aspectos, conforme a conveniência do momento. Ficam sob o domínio da persona fictícia, deixando-os alheios às suas reais naturezas. São exemplos: os mentirosos, os que roubam e acham que são honestos (corruptos), os criminosos que se acham inocentes, nós mesmos quando nos achamos perfeitos, quando queremos mostrar o que não temos, os que se acham lindos sem o serem, as que se acham gordas (magras) sem serem, o endeusamento ou uma visão errônea de uma pessoa sem conhecê-la a contento, querer ser um outro imitando as suas características etc. etc...
De forma consciente ou inconsciente este contexto negativo (fugir da realidade e da verdade) chegará um dia à exaustão e ocorrerá a consciência do uso da máscara estereotipada e dos falsos comportamentos. Isto propicia uma resposta da alma, com a formação de uma energia retificadora, que se não for bem entendida e canalizada pelo portador, poderá ocasionar distúrbios tanto espirituais quanto físicos – as doenças emocionais e psicossomáticas,como exemplos.
Para cuidar da nossa personalidade é imprescindível o autoconhecimento. Só ele promove as possibilidades de preservação dos ideais superiores de vida, proporciona-nos uma visão clara da nossa autêntica máscara (com as suas imperfeições e virtudes), possibilitando-nos repará-la, a qualquer momento, sob as leis divinas. É um caminho aberto para a maturidade e o bem viver e, com certeza, uma maneira de ficarmos mais junto de Deus, com aquilo que somos e que temos.


1. MCCONNEL, James V. Psicologia.
2. PIRES, J. Herculano. Pedagogia Espírita.
3. DENIS, Léon. O além e a sobrevivência do ser.
4. KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns.

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