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A outra face de Maria

A outra face de Maria

por Mani Álvarez 

Depois de passados quase dois milênios sendo vista e depreciada como uma ‘prostituta arrependida’, surgem atualmente estudos e pesquisas que reabilitam Maria Madalena como a Apóstola (mensageira) mais amada, mais devotada e fiel do cristianismo primitivo. Embora os evangelhos canônicos não afirmem isso diretamente, essa é a posição dos evangelhos gnósticos escritos entre os séculos II e IV. A Igreja Ortodoxa Oriental oficialmente a reverencia como o Apóstolo dos Apóstolos, ao contrário da Igreja Católica Romana, que reconhece em Pedro o herdeiro e detentor das ‘chaves do Reino’.

Esta reabilitação atual de Maria Madalena não pretende estabelecer uma competição pela autoridade eclesiástica igual à de Pedro, sequer pelo poder e prestígio de uma mulher como portadora da mensagem cristã. É muito mais do que isso. O reconhecimento de sua importância na origem do cristianismo é a reabilitação do Feminino Sagrado na história humana. É a compreensão de que nós precisamos do seu modo intuitivo, emocional, ardente, sensível, intenso, para perceber a realidade e vivenciar o Divino. Em contraste às formas de obediência, disciplina e doutrinação racional que foram encarnadas em Pedro e transmitidas pela Igreja, Maria Madalena simboliza o Feminino em sua forma mais pura e amorosa. Bem diferente da Igreja (de pedra) de Pedro, Maria representa a Igreja do Coração.

Não é de admirar que nos tempos de pregação de Jesus, mulheres de todas as posições sociais se sentiram atraídas para segui-lo, porque Ele falava numa linguagem que elas entendiam. Numa época de crueldade, injustiça e discriminação intensa contra as mulheres, Jesus ensinava a compaixão e a igualdade entre os sexos. Não é estranho que nem a sua Igreja tenha ouvido Suas palavras?

“Espancaram-me, feriram-me, tiraram-me o meu manto, os guardas dos muros”. (Cânticos de Salomão, 5:7). O manto era, para uma mulher, a sua honra. Tirar o seu manto equivalia a uma violência, um estupro, à desonra. Mas, até hoje, os “guardas dos muros” entrincheirados nas tradições de dominância masculina, são incapazes de ouvir a mensagem curadora da compaixão, da justiça, da igualdade e inclusão das mulheres nas tradições religiosas.

A descoberta da outra face de Maria nos revela uma história que nunca foi contada – da união mística do Deus e da Deusa, do sagrado Hierogamos das tradições antigas, da união do masculino e do feminino, do homem e da mulher. O modelo para a verdadeira parceria e igualdade entre os sexos é a mulher – não a mãe, como tem sido mostrado nas Escrituras.

O culto a uma imagem exclusivamente masculina de Deus é idólatra e tem implicações perigosas, porque exalta o princípio masculino a uma posição de superioridade que não corresponde à realidade. Por milênios, nossa cultura excluiu a integração das duas formas humanas: o princípio masculino e o feminino. Será que ainda há tempo de redimir o Sagrado Feminino à condição de parceria, e salvar o planeta em que vivemos, a sociedade e a família humana? Pois, assim como um pássaro não voa apenas com uma das asas, o ser humano precisa de sua complementaridade para ser inteiro e alcançar a maturidade espiritual.

Por Mani Alvarez

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