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Divulgação / Créditos: Malu Galli

Tragédias gregas

Contos da mitologia ganham novas montagens

As tragédias gregas tomaram conta dos palcos cariocas e paulistanos neste fim de ano. Histórias mitológicas que atravessaram muitos séculos continuam encantando atores, diretores e, claro, plateias. Para preservar a memória de seu povo, os gregos criaram mitos que foram passados de geração a geração, tendo o teatro como um importante aliado na transmissão destas histórias. Heróis, deuses, ninfas, titãs e centauros são os personagens mais comuns destas clássicos, riquíssimos em dados psicológicos, econômicos, materiais, artísticos, políticos e culturais. “Medea en Promenade”, “Édipo Rei” e “Oréstia” estão em cartaz no Rio. Já “Átridas”, em São Paulo.
Baseado em um dos mais fascinantes mitos gregos, a primeira conta com a direção de Guta Stresser, que fez sua estreia como diretora. Na mitologia, Medeia é descrita como uma mulher que comete atos perversos e fatais contra sua família, filhos e todos aqueles que se encontravam próximos. No espetáculo, a história transcorre no tempo do confronto entre o esquecimento e a responsabilidade desses atos.
- Existe um embate entre duas mulheres extremamente antagônicas, que são Medeia e a Jovem, ambas apaixonadas pelo mesmo homem. Há ainda uma discussão sobre diferenças sociais e culturais entre a Jovem e a Ama e o lugar que cada um ocupa nessa tragédia – define Guta.
Considerada por Aristóteles o exemplo mais perfeito de tragédia grega, “Édipo Rei”, escrita por Sófocles em 427 a.C., ganha uma versão atual e popular. Atores de diferentes gerações e estilos teatrais, dirigidos por Eduardo Wotzik, marcam a nova montagem do clássico. O elenco é formado por Eliane Giardini, Gustavo Gasparani, César Augusto, Fabianna de Mello e Souza, Pietro Mario Bogianchini, Thiago Magalhães, Nina Malm e Louise Marri, que contam com as participações especiais de Amir Haddad e Rogério Fróes.
A ideia de montar o clássico veio de Gustavo Gasparani, cofundador da Cia dos Atores, e do diretor Eduardo Wotzik, criador do Grupo Tapa. Encantados pela história, os dois desenvolveram pesquisas e realizaram leituras dramatizadas da tragédia.
- “Édipo” foi minha monografia na faculdade de Psicologia. Às vezes, tenho a impressão de que tudo o que eu fiz até agora foi uma preparação para montar este espetáculo. É, com certeza, o maior desafio da minha carreira. A peça me dá oportunidade de entrar em contato com o melhor que a minha profissão pode oferecer - explica Wotzik.
 Gasparani dá vida ao protagonista Édipo, que tenta, sem sucesso, alterar o seu destino inexorável revelado por um oráculo em sua infância. Segundo a profecia, ele mataria o pai e se casaria com a própria mãe. Diante do futuro nefasto, Édipo decide fugir da casa de seus pais, sem saber que havia sido adotado. A previsão do oráculo é concretizada e, horrorizado ao descobrir a verdade, o protagonista prefere arrancar os próprios olhos a encarar sua sina.
Eliane Giardini vive Jocasta, viúva que se casa com Édipo sem saber que é seu filho quando este se torna rei de Tebas. Para viver a personagem, a atriz, que estava na reta final da novela “Avenida Brasil” durante o período de ensaios, leu outras tragédias que abordam a lenda de Édipo e peças afins.
- Encenar um clássico é uma empreitada. É preciso dispor de excelentes atores, diretor refinado e uma produção que dê conta de tanta gente em cena e fora dela. Por isso, quando o Gustavo me convidou, vi que havia chegado a hora – conta Eliane, que estava há cinco anos afastada do teatro.
Já o diretor teatral Amir Haddad faz uma participação no espetáculo como o cego Tirésias, que ajuda o protagonista a descobrir os motivos ocultos por trás de uma terrível praga que assola a cidade de Tebas: 
- É uma coisa deslumbrante. Você vê o que é a grande dramaturgia, o que é o clássico. Todos que escreveram para o público sem distinção de classes são maravilhosos. Os clássicos são isso: gente que escrevia para todo mundo e representava todas as classes sociais. O teatro grego também era feito para toda a comunidade. É um teatro próximo das suas origens, ainda com cheiro do incenso das sacristias dos templos politeístas da Grécia. É teatro. É dramaturgia pura.
Outra peça mitológica em cartaz no Rio é “Oréstia”, de Ésquilo, escrita em 458 A.C., única trilogia grega que sobreviveu ao tempo e chegou completa aos dias atuais. Malu Galli encena e divide a direção com Bel Garcia, da Cia dos Atores. A trilogia é composta pelas peças “Agamêmnon”, “Coéforas” e “Eumênides”. Na primeira, o rei Agamêmnon retorna a Argos, sua cidade natal, depois de comandar o exército grego na invasão de Tróia. Ele é, então, brutalmente assassinado por Clitemnestra, sua esposa, que tem como cúmplice seu amante Egisto, primo de Agamêmnon.
Já “Coéforas” se passa dez anos após o desfecho da primeira. Dessa vez, acompanhamos a história de Electra e Orestes, filhos de Agamêmnon. Realizando o desejo da irmã, o rapaz assassina a própria mãe e Egisto. A terceira e última parte começa imediatamente após o matricídio, quando um Orestes enlouquecido e perseguido pelas Fúrias (divindades arcaicas encarregadas de vingar todos os crimes cometidos contra o próprio sangue) busca no santuário da deusa Atená, em Atenas, sua absolvição.
- Procuramos preservar a poesia e certo eruditismo do texto, focando nas relações familiares, na figura dos heróis e, sobretudo, nas escolhas dos personagens. Tragédia é poesia, êxtase, música e beleza, uma experiência diferente - define Malu.
Em São Paulo, o público pode conferir “Átridas”, da companhia [pH2]: estado de teatro. Assim como “Oréstia”, o espetáculo narra a trilogia de Ésquilo, mas recorre a uma dramaturgia própria, não linear, que busca confrontar as trajetórias dos personagens. O trabalho de interpretação privilegia o cruzamento do imaginário pessoal de cada ator com o estudo das figuras trágicas. “Átridas” promove um embate com a tragédia grega e traz à tona questões ainda pertinentes ao nosso tempo, buscando dar um novo vigor à mitologia.

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