Estudos


Nefertiti: uma deusa no comando
por Cláudia de Castro Lima


Provável rosto de Nefertiti

Ela se tornou sacerdotisa de uma nova religião e foi adorada como deusa. No fim da vida, governou sozinha o maior império de seu tempo.Poucas vezes nos quase 10 mil anos da história da humanidade a pessoa mais poderosa do mundo foi uma mulher. No Egito, no entanto, uma bela rainha liderou o maior império do século 14 a.C.
Era uma época de prosperidade e riqueza, graças às relações comerciais com os vizinhos da Mesopotâmia e da Ásia Menor. Era também um tempo de paz, quando a diplomacia egípcia evoluiu a ponto de surgirem inacreditáveis alianças com povos que antes só queriam saber de guerra, como o reino Mitani.

Mas por trás de toda essa calmaria uma tempestade estava se formando.
Aos 16 anos de idade, Amenhotep IV assumiu a co-regência ao lado do pai, Amenhotep III, que já estava no 28º ano de reinado. Em 1352 a.C., com a morte do velho, o rapaz herdou o poder sozinho. Quatro anos depois, sem maiores explicações, o novo faraó pirou. Mandou substituir o culto ao deus Amon-Rá, o mais importante da época, pela adoração ao deus-sol Aton, representado pelo círculo solar. Trocou seu nome para Akhenaton (que significa “a glória de Aton”) e espalhou que ele era o enviado do novo deus à Terra. Ordenou a construção da cidade sagrada de Akhetaton (“o horizonte de Aton”, conhecida hoje como Tell El-Amarna). E para lá transferiu a capital do Egito, para desespero dos sacerdotes e desentendimento geral da nação. Ao anunciar todo esse pacote de mudanças, avisou: “Ninguém, nem mesmo minha esposa, me fará mudar de idéia”.
QUEM É ESSA MULHER


A influente esposa citada nos discursos do faraó – fato raríssimo para a época e que mostra a importância da rainha – era Nefertiti. Não se sabe exatamente quando nem onde Nefertiti nasceu.
Nefertiti (que significa “é chegada a bela”) só passou a existir oficialmente após seu casamento com Amenhotep IV. Ela tinha 14 anos. Foi quando começou a aparecer nas inscrições em estelas e talatats, pequenos blocos de pedra na base das construções egípcias. São comuns estelas nas quais Nefertiti aparece ao lado do marido com suas filhas (eram seis ao todo). Cenas inéditas de carinho e intimidade familiar são mostradas.
O jovem faraó tinha duas esposas, mas a principal, a que possuía o título de Grande Esposa Real, era Nefertiti. Ao longo do tempo, sua influência só foi aumentando. “Na implementação da nova religião, Nefertiti teve um papel fundamental”, diz a historiadora Anna Cristina Ferreira de Souza, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Esse crescimento pode ser visto nas imagens da rainha gravadas nas paredes dos templos em Amarna – que fica a 590 quilômetros do Cairo. No começo, Nefertiti aparece bem menor que Akhenaton. Com o passar dos anos, ela vai ficando cada vez maior, até alcançar o tamanho do marido – uma indicação de que seu status também foi aumentando.
O crescimento atípico da rainha é normalmente associado ao seu papel na nova religião criada pelo marido. Pela primeira vez, o deus egípcio era único. Até então, a religião do Egito era baseada no culto a diversos deuses, cujos representantes na Terra eram os próprios faraós. A origem da crença remonta à Pré-História, quando tribos locais adoravam deuses e animais. Vários deuses eram cultuados, mas um de cada vez – o que era conhecido como monolatria.

Nefertiti e Akhenaton 

Quando ainda se chamava Amenhontep IV, o faraó já dava indícios de sua nova fé: começou a levantar templos para Aton na cidade de Karnak, lugar de adoração de Amon-Rá. Até que oficializou o culto ao disco solar e ordenou o abandono do antigo deus. No quinto ano de seu reinado, começou a construção da nova capital, Akhetaton, que ficou pronta três anos depois. A relação com os outros deuses, a partir de então, estava rompida. Seria como se alguém hoje proibisse os católicos de adorar seus santos.
“Nefertiti contava com grande empatia e carisma entre a população, dando alguma popularidade ao culto de Aton, combatido pelos poderosos sacerdotes egípcios, que preferiam os deuses tradicionais”, afirma a historiadora Deborah Vess, da Universidade de Geórgia, nos Estados Unidos. “Sua beleza, combinada com o poder que ela adquiriu, tornou-a uma das mulheres mais importantes da história”, diz. As outras rainhas foram simplesmente rainhas. Nefertiti não: ela virou uma deusa encarnada.


PERSEGUIÇÃO RELIGIOSA



Nefertiti, Akhenaton e seus filhos

Akhenaton promoveu a si mesmo e sua esposa à posição de deuses vivos. No início, o deus-sol Aton era representado com corpo humano e cabeça de falcão. Com o passar do tempo, essa representação foi substituída por imagens da família real, que estava sempre recebendo sagradas emanações do disco solar. “Houve uma simplificação na hierarquia dos deuses do Egito: só subsistiram as figuras de Aton e do rei, que era o único meio de acesso à esfera divina”, afirma Anna Cristina. “Os cultos passaram a ser direcionados à família real, pois só ela conhecia e podia cultuar o deus.” Nessa nova liturgia, Nefertiti encarnava todas as divindades femininas que os egípcios estavam acostumados a cultuar.
Tudo isso, porém, teve também uma motivação política. O poder do Egito, um reino em que religião e política se misturavam, antes era concentrado nas mãos dos sacerdotes de Amon. Na nova religião, passou a ser exclusivo do casal real. Desde o início, as mudanças atraíram a oposição dos poderosos sacerdotes. “Quem foi esperto e mudou de religião teve seu emprego garantido”, diz o egiptólogo Antônio Brancaglion Júnior, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Quem não o fez acabou perseguido, preso e banido.”
A insatisfação chegou à nobreza, incomodada pela extrema concentração de poder do faraó e de sua família, e finalmente ao povo, afetado pela construção da nova cidade – o que levou ao aumento de impostos e inflacionou os preços.
Além disso, o faraó não tinha a menor vocação para a guerra ou a política. Durante seu reinado, o Egito perdeu seus territórios na Ásia para os hititas, o que diminuiu a coleta de ouro e de impostos. Diante das críticas, Akhenaton reagiu com mais perseguição religiosa e enviou mensageiros a Tebas e Mênfis para destruir qualquer menção a outros deuses.

VIÚVA E PODEROSA



Esse era o clima em 1336 a.C., quando Akhenaton morreu, provavelmente de causas naturais, aos 34 anos – a média de vida dos egípcios, mesmo entre a elite, era de apenas 35 anos. Nessa época, as imagens de Nefertiti mostram-na usando paramentos típicos de faraó, como coroa e bastões. Para a maioria dos especialistas, o fato sugere que ela teria assumido o trono do Egito – primeiro ao lado do marido e, depois da morte de Akhenaton, como sua sucessora. “Embora o assunto permaneça controverso, atualmente a opinião de que ela tenha governado como rainha única é cada vez mais aceita”, diz Brancaglion.
Gravações em pedra encontradas em escavações no século 19 em Amarna mostram que, após a morte de Akhenaton, o Egito foi governado por um (ou uma) faraó de nome Nefernefruaton – que seria, na verdade, Nefertiti.
Para Zahi Hawass, secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades Egípcias, não restam dúvidas sobre o poder acumulado por Nefertiti após a morte do marido. “As imagens de Amarna mostram a rainha sozinha, liderando procissões religiosas e até à frente de exércitos, posições reservadas exclusivamente aos faraós”, diz Zahi.
Críticos dessa tese chamam a atenção para o fato de que o sucessor de Akhenaton revogou quase tudo que o faraó fez durante seu reinado – o culto a Aton foi extinto e os antigos deuses foram retomados menos de cinco anos após sua morte. Por que Nefertiti abandonaria a religião do marido?



Anna Cristina tem algumas hipóteses. “Akhenaton deixou o Egito em crise. Após sua morte, vários setores da sociedade se revoltaram contra o trono. O retorno ao culto a Amon-Rá deve ter sido uma forma que a nova faraó encontrou para contar com o apoio do maior número possível de pessoas e pacificar o país”, diz. Isso justificaria o fato de Nefertiti ter trocado seu nome e tentado romper os vínculos com o antigo regime. “Foi uma decisão importante, tomada por uma mulher que tinha exata noção de seu papel na política do Estado.” Brancaglion concorda que a motivação de Nefertiti deve ter sido política. “Ela provavelmente percebeu que a nova religião estava levando o Egito ao colapso”, afirma.
Apesar disso, Nefertiti não conseguiu deter a crise religiosa e social que levou o Egito a um período de instabilidade política. Depois de apenas três anos de poder, ela teria morrido em situação nunca esclarecida. O Egito passou a ser governado pelo jovem Tutancâmon, que assumiu com cerca de 9 anos e morreu aos 19 anos.
Para quem acredita que Nefertiti terminou seus dias como a poderosa rainha do Egito, é difícil aceitar que seu corpo jamais tenha sido localizado – embora uma especialista americana tenha afirmado, em 2003, que achara seus restos mortais. Durante o governo de Tutancâmon, Amarna – provável local do sepultamento da rainha – foi abandonada. Os crentes de Aton foram perseguidos e a maioria dos templos construídos por Akhenaton e Nefertiti foram depredados. Os rostos dos soberanos foram raspados das imagens esculpidas em pedra. É possível que, nessa época, a tumba da rainha tenha sido violada.

Crescendo e aparecendo
Gravações em amarna indicam que a importância de Nefertiti aumentou com o passar do tempo.
À SOMBRA DO REI
No início do reinado do marido, ela aparece em tamanho desproporcional ao dele – o que era comum, pela maior importância política e religiosa do faraó. A arte tinha uma gama limitada de cores: vermelho, amarelo, azul, verde, preto e branco eram as únicas que os egípcios conseguiam obter.
OMBRO A OMBRO
Com o tempo, a imagem de Nefertiti aumenta até ficar da mesma altura que a do marido, sinal de que sua importância atingiu um patamar igual ao dele. Com Akhenaton, as linhas curvas passaram a ser valorizadas para lembrar o círculo solar do rei Aton.
1. DISCO SOLAR

As imagens de Amarna mostram o deus Aton representado pelo círculo solar. Ele geralmente fica no centro do desenho, irradiando raios luminosos sobre as cabeças do casal real. Os cultos se davam em lugares abertos, à luz do dia. A nova religião também era mais branda com os fiéis: quando morriam, eles se livravam automaticamente dos pecados, coisa que não acontecia nos outros cultos.
2. NEFERTITI
A rainha foi retratada inúmeras vezes em situações de família ou em rituais ao lado do rei. Também aparece – mais vezes do que o próprio faraó – oficiando rituais a Aton sozinha. Há na arte de Amarna ainda relevos que mostram seu papel importante na política: Nefertiti aparece golpeando inimigos ou na presença de cativos, atitudes que até então eram relacionadas apenas ao faraó.
3. AKHENATON
Era comumente retratado com cintura de mulher, coxas grossas e seios, enquanto Nefertiti por vezes aparecia com feições masculinas – figuras bem andróginas. Isso intrigava os pesquisadores, que achavam que o faraó tinha a síndrome de Frölich, uma disfunção glandular que deixa o portador infértil. Só depois percebeu-se que, como seres masculinos e femininos, o casal real se assemelhava ao deus-sol.
4. CRIANÇASPela primeira vez na história do Egito – e talvez na de todo o mundo antigo – cenas cotidianas e íntimas da família real foram expostas. O casal de soberanos aparece se beijando em frente às filhas, pegando-as no colo, dando comida a elas, fazendo-lhes carinho. As crianças aparecem brincando ou chacoalhando instrumentos musicais em cultos a Aton.

Rosto mutilado

Povo não perdoou a traição a seus deuses.
Anos após a morte do casal real, a população decidiu se vingar. Destruiu a antiga cidade de Akhetaton e quase todas as imagens do casal. Acusada de heresia por renegado os antigos deuses, Nefertiti teve os olhos de suas imagens riscados – para que não pudesse enxergar o paraíso depois da morte.
Para saber mais
• Deuses, Faraós e o Poder, Julio Gralha, Barroso Produções Editoriais, 2002 - Ajuda a entender a nova religião proposta por Akhenaton• Nefertiti, Egypt’s Sun Queen, Joyce Tyldesley, Penguin, 2000 - Com base em documentos e imagens, a autora recria a corte de Amarna nesta biografia da rainha.

A bela era homem

Pesquisadora disse ter achado a múmia que sumiu.
Um dos maiores mistérios da vida de Nefertiti é o paradeiro de sua múmia. Uma egiptóloga americana, Joann Fletcher, especialista em perucas egípcias (elas são uma forma de identificar as múmias, já que resistem bem à decomposição), fez o maior barulho em 2003 ao afirmar que tinha encontrado a rainha. Com uma equipe do canal Discovery, Joann foi até uma tumba do Vale dos Reis identificada como KV35. Uma peruca parecida com as usadas pelas mulheres da realeza foi achada ao lado de uma múmia mutilada. A mutilação de Nefertiti seria vingança dos seguidores de Amon-Rá. A comunidade mundial de egiptólogos se manifestou prontamente. O resultado de um teste de DNA feito na múmia em 2005 foi devastador. O corpo mutilado da KV35 era de um homem. Foi um vexame.

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