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Manoel José da Costa e Cunha



O primeiro propagandista do Espiritismo no Paraná, ali pelo ano de 1870, foi o conceituado cidadão Manoel José da Costa e Cunha, nascido a 15 de dezembro de 1852, na Freguesia de Merelin (S. Pedro), Conselho e Distrito de Braga, Portugal.

Alma aberta ao progresso e às novidades e conquistas do espírito humano em sua ascese perene, tendo tomado contato com os primeiros livros espíritas em uma das muitas viagens comerciais que fizera ao Rio de Janeiro, ouviu referências ao Espiritismo, Manoel Cunha, como abreviadamente o chamavam, após o estudo das obras fundamentais deixadas por Allan Kardec, a começar pelo "O Livro dos Espíritos", entrou a fazer reuniões íntimas, de estudo e preces, obedecendo escrupulosamente a todas as recomendações constantes da Doutrina Espírita.

Com a constância que lhe era peculiar, a bondade congênita e a elevação espiritual com que apreciava o empolgante assunto da comprovação da imortalidade, Manoel Cunha obteve, progressivamente, excelentes resultados de tais experiências, que o animou a reunir crescente número de pessoas de suas relações comerciais, sociais e familiares interessadas no assunto, culminando, por fim, com a fundação do Centro Espírita de Curitiba.

Determinado a tornar conhecido o Espiritismo em todas as camadas sociais e desfrutando de largo prestígio moral no comércio e na sociedade paranaense, o grande pioneiro soube medir suas responsabilidades e seus passos na senda que tomara. Manoel Cunha ia aumentando seu esforço espiritual e intelectual, sem abandonar as suas atividades cotidianas do comércio, e, ao mesmo tempo, procurando exemplificar o Evangelho do Cristo, iluminado pelo Espiritismo, em sua feição que é a solidariedade e o amor para com todos os seus semelhantes. Com esse objetivo fundou a primeira Assistência aos necessitados no Brasil, iniciando e mantendo, durante dezenas de anos, constante distribuição de gêneros, roupas e dinheiro aos pobres de Curitiba, no que veio a ser ajudado por outro filho de Portugal, o benquisto comerciante Pacífico Guimarães, que foi investido nas funções de tesoureiro e conquistou a simpatia e o apoio de grande parte da sociedade paranaense.

Tal como estamos historiando parece que tudo isso se desenvolveu num verdadeiro mar de rosas. Que o homem chegou, viu e venceu, sem obstáculos, coberto de flores. . . Puro engano, porque, se por um lado encontrou pessoas de boa vontade dispostas a compreender as coisas e assimilar as verdades novas ou, melhor, revividas em termos modernos por outro lado teve de enfrentar o farisaísmo e a incompreensão, a má vontade e o ridículo, quando não a ameaça, a intimidação e a violência para deter e afugentar as novas idéias, esterilizando os crentes.

Imperturbavelmente, por entre prós de um lado e contras de outro, o Espiritismo era, todavia, uma Verdade em marcha no Estado do Paraná; uma consolação suavizadora para muitas angústias e uma divina esperança na terrível desolação das almas crestadas pelos vendavais das desditas incoercíveis.

Realizando sessões, distribuindo livros, amparando os pobres do corpo e do espírito, Manoel Cunha, como figura central, não podia parar na jornada. Viu que havia doentes, muitos doentes, e que os guias receitavam homeopatia e a maioria dos enfermos não tinha dinheiro para comprar os remédios. A Assistência aos necessitados os supria, mas o volume aumentava. Que fazer? Montar uma farmácia homeopática. Para explorar o povo? Não, que isso seria incorreto. Para dar remédio gratuitamente. E não hesitou. Designou o seu sobrinho Domingos Duarte Veloso, moço entusiasta, adepto do Espiritismo e conhecedor da homeopatia para cuidar do empreendimento. Distendeu com a montagem cerca de quatorze contos de réis (quatorze mil cruzeiros) e a Assistência Farmacêutica passou a aviar receitas homeopáticas, de graça, para todos os que a ela recorriam, sem exceções nem restrições quaisquer. Domingos Veloso era auxiliado pelo seu irmão, também espírita e português, Antonio Duarte Veloso.

O círculo dos convertidos aumentava, dia a dia, e era notável o entusiasmo com que comentavam, em todos os meios e relações que estabeleciam, as comunicações que obtinham, as curas que os Espíritos prodigalizavam aos que a eles recorriam, muitos dos quais até desenganados pela medicina. Tudo isso intrigava, suscitava comentários, uns sérios, outros ridículos, variando de intensidade segundo o meio social em que os crentes exerciam as suas atividades cotidianas. A cada golpe ferino, o adepto visado nunca se mostrava revoltado. Falava com alegria dos princípios da Doutrina e buscava demonstrar o seu grande amor à causa que abraçava.

Os já numerosos companheiros de Ideal, em sua generalidade, eram homens de poucos recursos econômicos, embora gozassem de bom conceito público por serem virtuosos e visceralmente honestos. Entre os mais destacados, figuravam Alfredo Caetano Munhoz, redator de "A Luz" (revista mensal mantida por Manoel Cunha); Pacífico Guimarães, português, comerciante, e um dos colaboradores na Assistência aos necessitados; João Urbano de Assis Rocha, professor de música e sua esposa, dona Josefina Rocha, parteira; Paul e Madame Sauvé, que dirigiam um Centro onde chegaram a obter versos atribuídos ao espírito de Victor Hugo e que foram publicados em livro sob o título "Lês Verités Eterneles"; Dr. Sebastião Paraná, professor do Ginásio e Escola Normal e que teve bela atuação; Manoel Pacheco de Carvalho, João Álvaro de Aguiar, Augusto Correia Pinto, Alfredo Alves da Silva, Jesuíno da Silva Pereira Ribas, João Pedro Schleder, João Huy, jornalista e historiador; Vicente Duarte Veloso, Antonio Duarte Veloso, Antonio Leodoro da Silva, Teodorico Lassala Freire, tenente Alcebíades César Plaisant, Major Júlio Ribeiro de Campos, Dr. Francisco Ribeiro de Azevedo Macedo, Virgílio Correia, Vítor Antonio Vieira, Raimundo Aires, José Lopes Neto, Domingos Greca, dona Francisca de Jesus Araújo, José Lorusso e esposa, Lúcio Pereira e outros.

Manoel Cunha desencarnou em 15 de outubro de 1910, na cidade de Paranaguá.

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